 Fusão ou confusão
Por Philip Crosby
Quando duas grandes empresas se fundem, o burburinho da mídia é geralmente sobre
como se relacionarão os dois principais executivos. Isso torna-se assunto de conversas de
reuniões de almoço e fonte de boatos por algum tempo. Entretanto, tudo isso não faz
muita diferença quando analisamos as possibilidades de sucesso do empreendimento. As
pessoas do alto escalão da empresa irão embora, após algum tempo, e a empresa, terá
que ser gerida por outros sobre os quais tudo mundo poderá fazer especulações. Os
executivos vão e vêm.
Mas, o que acontece com os que foram objeto dessa
fusão? Li todos os artigos publicados no "New York Times" sobre a recente
fusão entre a CBS e a Viacom. Neles, cada um dos aspectos de ambas as companhias foram
examinadas em detalhe e foram feitas projeções sobre suas finanças e influências.
Entretanto, nada foi dito sobre os funcionários, as pessoas que fazem acontecer todas
essas coisas maravilhosas. Eu nem consegui descobrir quantos funcionários estão
envolvidos, mas tenho certeza que são centenas de milhares.
Que será que eles estão pensando? A primeira coisa que vem em
suas mentes nessa situação, é: "somos nós todos nós ou
eles?". Eles se perguntam se serão os ganhadores ou os perdedores. Os
mais espertos já estão procurando outra colocação. Os restantes estão erguendo
trincheiras. Enquanto nos andares de cima brindam o empreendimento, nos andares de baixo
erguem-se casamatas. Haverá comoções, e as esperadas eficiências de escalas não
aparecerão por muitos anos. Perguntem ao Citigroup.
Os criadores de fusões erram quando não planejam
proporcionar a seus funcionários uma filosofia de gestão comum para todos, uma linguagem
que todos possam entender da mesma maneira e em que todos possam confiar. As pessoas
receiam perder seus empregos, preocupam-se com as personalidades vibrantes das novas
lideranças, não sabem em quem confiar. Recebem suas informações da mídia e muitas
delas são apenas conjeturas. Isto forma um bando de guerreiros desanimados, cautelosos e
rebeldes dos quais se espera que lutem em novos combates. É um grande erro extremamente
caro que muitos desses criadores de fusões cometem.
Quando Harold Geneen estruturou a ITT nas décadas de 60 e 70, ele
adquiriu 500 empresas dos mais diversos ramos. Sua política era "comprar aquilo que
está a venda". Ele utilizava patrimônio e dinheiro e pagava preços justos. Em
seguida fazia duas coisas: primeiro planejava o crescimento da nova organização e não a
liquidação dos seus ativos, na tentativa de obter um retorno imediato do investimento e
segundo, ensinava às novas pessoas a linguagem comum da ITT. Nos 46 países onde
tínhamos operações, todas as gerências e todos os funcionários entendiam os conceitos
básicos da mesma maneira.
Existia um único sistema de gestão financeira e
ele era gerenciado desde Nova Iorque. Davam-se aulas para ensinar às gerências
operacionais e financeiras a medir e fazer relatórios. Podíamos examinar os números
provenientes de qualquer lugar do mundo e entender o que estava acontecendo ou não estava
acontecendo.
Existia uma linguagem comum da qualidade. Ensinamos a todos que a
qualidade significa cumprir com os requisitos combinados, que ela se origina da
prevenção, ao invés da detecção, que o padrão de desempenho é Zero Defeito e que a
qualidade é medida pelo Preço do Não-Cumprimento (PNC). (A maioria das empresas gasta
20% de suas receitas fazendo as coisas de modo errado. A redução do PNC é a melhor
maneira de aumentar a lucratividade destas empresas).
Apoiado na gestão financeira e na gestão da
qualidade, ele incorporou um sistema de gestão abrangente que conduzia a promoção
interna das pessoas o que resultou no crescimento das organizações. Os hotéis Sheraton,
ITT Industries e muitos outras começaram sendo companhias pequenas e mal financiadas. Ele
as fez crescer. Das 500 empresas, apenas algumas poucas diminuiriam, geralmente porque
seus produtos e serviços não eram adequados.
Quando saí da ITT, em 1979, para dedicar-me a ensinar a
organizações, através do nosso Quality College, como fazer a qualidade acontecer,
tratamos com milhares de empresas em todo o mundo, que desejavam criar, para si próprias,
uma linguagem e uma filosofia de gestão comum. O resultado foi que elas melhoraram
enormemente o relacionamento com seus funcionários, fornecedores e clientes. Hoje,
continuamos ensinando essas coisas, porém percebemos que essas grandes organizações que
se fundiram, não se preocupam com isso.
Um dia se perguntarão porque ninguém atende
quando a campainha toca. |