Em Busca da Satisfação do Cliente
A Satisfação do Cliente e a ISO 9000:2000
por Carlos D. Joos*
Seria
lamentável
implantar a
medição da satisfação dos clientes apenas para cumprir com uma das
exigências da ISO 9000:2000.
O cliente em primeiro lugar.
Apesar de ser frase batida, ela exprime uma postura indispensável para que
qualquer organização alcance o êxito. O objetivo comum a todas as empresas
é de fornecer soluções para as necessidades de seus clientes, e seu
sucesso resultará de fazê-lo de modo de satisfazer o cliente.
Philip Crosby
ensinou que qualidade significa cumprir com os requisitos combinados com o
cliente. (A ISO 9000:2000 adotou essa definição). Para fazer com que isso
aconteça é necessário contar com técnicas e ferramentas que nos permitam,
primeiramente, identificar quais são os requisitos desejados pelos
clientes e em seguida, medir e monitorar como atendemos esses requisitos.
Uma das inovações mais importantes
da ISO 9000:2000 é o requisito de medir e monitorar a satisfação dos
clientes e, em seguida, utilizar essas informações para adotar ações para
melhorar continuamente sua satisfação. Esse assunto que, até pouco tempo,
era quase exclusivamente uma atividade da alta administração posiciona a
Qualidade, firmemente no campo das disciplinas de estratégia empresarial.
Esta é uma oportunidade que os profissionais da qualidade não devem
desprezar, se quiserem ser ouvidos pela alta administração.
Seria lamentável
implantar a medição da satisfação dos clientes apenas para cumprir com uma
das exigências da ISO 9000:2000..
A introdução dessas exigências
implica reconhecer que a gestão da qualidade visa aumentar a
competitividade da organização. O cliente satisfeito continuará comprando
nossos produtos e serviços e também os recomendará a seus conhecidos. É um
fato comprovado que custa 10 vezes mais obter um novo cliente que reter um
cliente atual. A satisfação do cliente, junto com a melhoria continua,
tornam-se a os objetivos mais importantes de qualquer sistema de gestão da
qualidade.
Da analise do texto podemos
perceber que os autores das novas normas se preocuparam com quatro
aspectos fundamentais da satisfação dos clientes, ou seja:
-
A
liderança do processo para a busca da
satisfação do cliente,
-
A
obtenção de dados úteis e confiáveis,
-
A análise
dos dados para obter informações que fundamentem a estratégia de
melhoria da qualidade
-
A adoção
de ações que efetivamente melhorem continuamente a satisfação dos
clientes.
Vejamos como estas quatro
variáveis se inter-relacionam para criar um sistema para a melhoria da
satisfação do cliente.
A liderança do processo para a busca satisfação
A satisfação dos clientes não é
uma opção: é uma questão de sobrevivência para qualquer organização. A
alta administração necessita liderar o processo para a busca continua da
satisfação do cliente. Para isso é indispensável compreender as seguintes
verdades incontestáveis:
-
Philip
Crosby escreveu a seguinte metáfora: “Os
relacionamentos de uma organização representam sua alma, a qualidade
seu esqueleto e as finanças sua sangue”. O objetivo principal de
qualquer organização é a satisfação de seus clientes.
Sem seus clientes a organização não tem propósito,
alias, nem existirá por muito tempo.
-
A satisfação dos clientes e a
habilidade da empresa de obter lucros são variáveis interdependentes.
Os lucros são vitais, porque, como o sangue que transporta os
nutrientes que alimentam nosso corpo, permitirão realizar o objetivo
de satisfazer os clientes. Ao mesmo tempo os lucros são os resultados
da eficiência com que a organização atende os requisitos e
expectativas de seus clientes.
-
Para satisfazer o cliente é
necessário ter, primeiro, uma compreensão profunda de suas
necessidades e, em seguida, possuir os processos de trabalho que
possam, de forma efetiva e consistente, resolver essas necessidades.
Para isso a organização deverá traduzir essas necessidades em
requisitos e cumprir esses requisitos, sempre, porque o cliente não
exigirá menos. Isso exigirá a dedicação de recursos para coletar e
analisar dados e informações, sistematicamente, para entender os
requisitos e as percepções do cliente.
-
As necessidades dos clientes
mudam e evoluem constantemente. A organização
necessita
antecipar-se a essas mudanças para
ter vantagens
competitivas.
Os investimentos nessas atividades produzirão retornos substanciais,
mas é importante que a Administração entenda que os retornos mais
importantes virão, quase sempre, no meio e no longo prazo.
-
O cliente forma sua percepção
de uma organização em base a diversidade de impressões que recebe em
seus contatos com as pessoas e os produtos e serviços dessa
organização. Todas as pessoas que integram a organização fazem alguma
coisa para cumprir com os requisitos dos clientes, e por tanto
influenciam sua satisfação, começando, é claro, pela Alta
Administração. Ela, particularmente, tem a responsabilidade de
conscientizar a todos da importância de cumprir com os requisitos e
assegurar que todos entendam como seu trabalho contribui para a
satisfação do cliente. Quando todos estejam conscientizados, então a
organização poderá ter a certeza de possuir uma cultura orientada ao
cliente. Nesse momento, a organização conseguirá o máximo retorno dos
recursos investidos nos esforços de
de medir e analisar a satisfação do
cliente.
A obtenção de dados úteis e confiáveis
A dificuldade não
está em encontrar onde obter os dados sobre a satisfação dos clientes, já
que existem inúmeras fontes para levantar esses dados. A verdadeira
dificuldade reside em:
Definir quais dados interessam
Para saber quais
dados coletar é necessário
primeiro
determinar:
-
Qual o significado de
“satisfação do cliente”
A satisfação do
cliente é geralmente definida como uma função das percepções do cliente e
de suas expectativas, de modo que:
Satisfação = Percepções / Expectativas.
ou
seja, “O cliente satisfeito é
aquele que
percebe
que o atendimento de suas necessidades pela organização é pelo menos
igual àquele que se
esperava.”
Para isso necessitamos saber exatamente quais as expectativas do cliente e
em seguida quais as suas percepções em relação ao cumprimento dessas
expectativas . É aqui que nos encontramos com o primeiro desafio,
porque as expectativas e as percepções são dinâmicas por serem
essencialmente subjetivas e mutantes e portanto difíceis de validar.
Para determinar
quais dados que necessitamos é indispensável estabelecer quem são nossos
clientes. Clientes são as pessoas ou organizações que recebem o resultado
de nosso processo de trabalho. Podemos classificar os clientes dos
seguintes modos:
-
Externos e internos:
Clientes externos são aqueles que não pertencem à nossa organização e
clientes internos são os que pertencem à organização. Por exemplo, o
garçom é cliente interno do chef de cozinha;
o supermercado é cliente externo do fabricante de cerveja.
-
Finais
e intermediários:
Clientes finais são os consumidores ou usuários finais do resultado do
processo de trabalho e clientes intermediários são todos aqueles que
agregam valor ao produto ou serviço antes de chegar ao cliente final.
Por exemplo, no caso de um restaurante o cliente intermediário do
chef de cozinha é o garçom e o cliente final
é a pessoa que come no restaurante; no caso de um plano de saúde, o
médico é o cliente intermediário e o paciente é o cliente final; para um
fabricante de autopeças os clientes intermediários são, por exemplo, as
montadoras, os distribuidores e os mecânicos que colocam as peças nos
automóveis e, os clientes finais são os donos e os
usuários dos automóveis onde as peças são instaladas.
-
Atuais,
Potenciais
e Perdidos: Os clientes atuais são os que
atualmente compram, utilizam e/ou consomem
nossos produtos e serviços. Potenciais são aqueles que atualmente não
compram, não utilizam nem consomem nosso produto, embora possam passar a
fazê-lo futuramente. Os clientes perdidos são os que já foram clientes,
mas algo aconteceu para que nosso relacionamento terminasse com eles.
Estes também poderiam ser considerados clientes potenciais.
A decisão de quais
clientes serão os alvos de nossas medições dependerá das necessidades
estratégicas da organização.
Assegurar que as medições sejam úteis, confiáveis e significativas.
Para ser útil, uma
medição deve orientar as melhorias. É preciso então saber o quê medir, ou
seja, saber quais são as necessidades que os clientes precisam resolver. O
dilema é que essas necessidades não sempre são claramente explicadas pelo
cliente, mesmo quando sabe o que quer, é comum o cliente não transmitir
seu desejo com clareza.
Para ser
confiável, o dado deve ser de fonte fidedigna.
Para que as
medições sejam significativas, os dados necessitam refletir a realidade e
não apenas casos excepcionais ou espúrios.
Existem diversas
técnicas para obter informações que cumprem em maior ou menor grau com
essas características. Vejamos alguns deles:
Relatórios de visitas:
Estes são os relatórios das visitas feitas a clientes ou clientes
potenciais. As visitas podem ser motivadas por uma variedade de causas,
desde contatos de venda até visitas de assistência técnica. A utilidade
desses relatórios para a medição da satisfação dos clientes dependerá dos
dados solicitados nesses relatórios. Entretanto, a confiabilidade das
informações poderá ser questionada, já que ninguém gosta de escrever
relatórios que freqüentemente são preenchidos somente para cumprir com um
ritual burocrático sem cuidar da exatidão das informações.
Formulários de comentários dos clientes.
Estes formulários são encontrados em balcões de recepcionistas, quartos de
hotel, aviões, restaurantes, clínicas, concessionárias de automóveis etc.,
e tem uma diversidade enorme de formatos. O problema é que a maioria das
pessoas preenche um desses formulários somente quando alguma coisa muito
positiva ou muito negativa aconteceu. Portanto os resultados tendem a ser
distorcidos e episódicos, sem ser representativos
da generalidade.
Reclamações dos clientes.
As reclamações fornecem informações, geralmente fidedignas, das percepções
de clientes que não foram bem sucedidos com os produtos e serviços que
receberam. São informações úteis que permitem a organização adotar ações
corretivas para melhorar seus processos. O valor da análise das
reclamações reside em que permite identificar problemas recorrentes
e/ou problemas que potencialmente possam ter
conseqüências graves para a organização e, assim adotar as medidas
corretivas necessárias do caso. Um bom processo de análise de reclamações
poderá contribuir a determinar a estratégia de melhoria.
Empresas que
utilizam essas informações como única medida da satisfação dos clientes
arriscam chegar a conclusões erradas. A empresa poderá estar perdendo
clientes sem saber o por quê. É um fato conhecido pelos
marqueteiros que a imensa maioria dos clientes
insatisfeitos não se molestam em reclamar, simplesmente deixam de comprar
o produto ou serviço e optam pela concorrência. Alem disso é muito mais
caro recuperar um cliente do que fidelizá-lo.
Todavia, as reclamações por definição, fornecem exclusivamente dados sobre
percepções negativas do cliente. Um bom sistema de medição da satisfação
do cliente não pode depender exclusivamente de informações negativas. É
necessário ter uma visão equilibrada com os pontos fracos e os pontos
fortes de nosso produto ou serviço sob a perspectiva de nosso cliente.
Portanto o
processo de reclamações dos clientes necessita estar inserido em um
sistema integrado de monitoramento da satisfação dos clientes para
detectar problemas atuais e potenciais que poderiam afetar negativamente a
satisfação do cliente.
CRM
– (Customer
Relations Management)
É um sistema informatizado para capturar e gerenciar todas as informações
relacionadas com cada cliente, incluindo cadastro, contatos, histórico de
compras, reclamações, etc.. O sistema de CRM
fornece dados extremamente úteis e detalhados sobre os clientes permitindo
elaborar informações que permitem, entre outras coisas, identificar as
necessidades dos clientes e a importância que os clientes atribuem a cada
característica dos produtos e serviços da empresa.
Estudos de satisfação do cliente.
As informações fornecidas por estes estudos geralmente são as mais úteis e
confiáveis desde que sejam utilizadas as metodologias e técnicas
adequadas. Um bom programa de estudo da satisfação dos clientes permite:
·
Avaliar o grau de satisfação dos
clientes da empresa
·
Monitorar o desempenho da empresa
ao longo do tempo.
·
Avaliar o desempenho da empresa em
relação a seus principais concorrentes.
·
Compreender os aspectos de maior
impacto para a satisfação dos seus clientes.
·
Avaliar a sintonia entre a direção
da empresa e a expectativa dos seus clientes.
·
Definir estratégia de melhoria de
qualidade a partir dos pontos fortes e dos pontos a desenvolver.
·
Otimizar os investimentos a partir
da definição precisa de estratégia de qualidade.
Os estudos de
satisfação do cliente geralmente têm duas abordagens seqüenciais, elas
são:
Qualitativa:
Utilizando técnicas de entrevistas
em profundidade e de dinâmica de grupo procura-se conhecer os atributos
considerados pelos clientes ao avaliar o produto ou serviço. Agregam-se as
informações provenientes de outras fontes como, das reclamações dos
clientes e dos formulários de comentários dos clientes. As informações
obtidas nesta fase servem para desenvolver a estratégia da abordagem
qualitativa que segue.
Quantitativa:
Utilizando questionários estruturados, aplicados à
amostras representativas dos clientes, procura-se levantar dados para
mensurar:
•
A expectativa e percepção dos
clientes com cada atributo
•
O grau de Satisfação Geral
•
A percepção da administração
Através da
aplicação de técnicas estatísticas como, por exemplo, a análise fatorial e
a análise de regressão, mensura-se a satisfação em face à análise das
expectativas do cliente, podendo analisar-se também, as vulnerabilidades
da empresa, a lealdade dos clientes, a importância de cada atributo na
percepção do cliente e o valor que agrega cada atributo à estratégia
empresarial.
Todas essas
informações são utilizadas para traçar a estratégia de melhoria da
qualidade e para implantar ações que efetivamente melhorem a satisfação do
cliente gerando o maior retorno para a organização.
Na utilização
das técnicas de pesquisa é importante tomar muito cuidado com o desenho
dos questionários, a definição do universo a ser pesquisado, o desenho das
amostras do universo, a margem de erro estatístico, a seleção dos
entrevistados e a seleção e o treinamento dos entrevistados, já que todas
essas variáveis influenciarão a confiabilidade dos resultados. Em função
da complexidade desta técnica geralmente as empresas que utilizam essa
técnica procuram assessoria externa especializada que também deve ser
cuidadosamente selecionada.
A análise dos dados para obter informações que fundamentem a estratégia de
melhoria da qualidade
Sem a análise e
interpretação das medições e das informações coletadas todos os esforços
realizados na coleta serão inúteis. A compreensão correta do significado
dessas informações permitirá a organização adotar as estratégias e ações
apropriadas. Essa parte do processo é crítica, já que a interpretação
errada das informações poderá levar a organização a tomar decisões
erradas.
Alem da
utilização de ferramentas estatísticas para analisar os resultados existem
algumas diretrizes básicas, elas são:
-
No processo de análise e
interpretação dos resultados, envolver as áreas que tem contato com os
clientes. As pessoas que trabalham em funções como vendas, marketing,
atendimento ao cliente, assistência técnica, podem contribuir e agregar,
com suas vivências e conhecimentos, enriquecendo, e validando o trabalho
de análise e interpretação.
-
Transformar os dados em gráficos
para apresentar as informações com maior clareza. A utilização de gráficos
como, por exemplo, os de tendência, histogramas, gráficos de
pareto, gráficos de pizza permitem uma
visualização mais clara que os dados numéricos apresentados em tabelas e
facilita a interpretação das informações.
-
É importante lembrar que os dados
de qualquer estudo de satisfação do cliente refletem informações do
passado e para que não sejam apenas uma fotografia de um momento no
passado devem ser analisados no contexto de medições anteriores que
permitam identificar tendências e mudanças. Portanto, efetuar medições
isoladas da satisfação dos clientes tem pouco valor, é necessário que a
medição seja um processo contínuo que possa direcionar a estratégia de
melhoria da qualidade.
-
A participação da alta
administração é necessária nas últimas etapas do processo de análise e
interpretação para que tenha um maior entendimento na hora de aprovar a
estratégia de melhoria da qualidade que será estabelecida em base
aos resultados das medições realizadas.
A adoção de ações que efetivamente melhorem continuamente a satisfação dos
clientes.
De nada adianta
saber o que precisa ser feito para melhorar a satisfação dos clientes se
nada disso é implementado.
Transformar a
estratégia de melhoria da qualidade em decisões e em seguida em ações não
acontece de forma automática. Sempre serão encontrados obstáculos que
precisarão ser superados. Qualquer melhoria, não importa se for simples ou
complexa, implicará na mudança de alguma coisa, geralmente um processo de
trabalho. As mudanças geram resistências se elas não forem implantadas de
modo correto. Tanto as pessoas como as organizações tendem a resistir-se a
mudar. Por isso é necessário ter um processo sistemático que permita
realizar essas mudanças de modo metódico e eficiente. Para melhorar a
satisfação dos clientes teremos que realizar mudanças no modo atual de
fazer as coisas e encontrar novos modos de realizá-las.
Uma das maiores
contribuições de Philip
Crosby para a Gestão da Qualidade foi desenhar um processo formado
por uma série de 14 ações gerenciais, que quando colocado em prática leva
a organização realizar essas mudanças de modo
sistemático e contínuo. O processo envolve conceitos, compromisso,
trabalho em equipe e sistemas. O processo desenhado
por Philip Crosby,muda
de modo sistemático a cultura da organização para que todos estejam
comprometidos com a melhoria; promove o trabalho em equipe para mobilizar
a todos para realizar as melhorias necessárias e implantar sistemas para
gerenciar a qualidade de forma metódica e disciplinada.
Resumo
Um bom
sistema de medição e monitoramento da satisfação do cliente consistirá em
um processo contínuo que permitirá monitorar como a organização melhora
neste aspecto através de um programa de estudos periódicos. Esse processo
passa sempre pelas seguintes fases:
1.
Identificação das expectativas
2.
Medição da Satisfação
3.
Elaboração das estratégias de
melhoria da qualidade
4.
Implantação das Melhorias
A medição e
monitoramento da satisfação do cliente junto com a implantação de
melhorias e mudanças nos processos, produtos e serviço com base na análise
dos dados obtidos nessas medições é uma das atividades estratégicas de
maior retorno para qualquer organização. As
empresas espertas colocarão em prática esses novos requisitos da ISO
9000:2000, não apenas por que as normas o exigem, senão porque
contribuirão significativamente a melhorar sua competitividade e seus
resultados.